O que é o shadow banking e seus riscos sistêmicos para a estabilidade financeira global

O shadow banking, ou sistema bancário paralelo, representa um conjunto de atividades e instituições financeiras que operam fora da regulamentação bancária tradicional, mas que desempenham funções semelhantes às dos bancos comerciais. Este fenômeno, que ganhou proeminência global, especialmente após a crise financeira de 2008, tem sido um motor de inovação e eficiência no mercado de capitais, mas também uma fonte significativa de vulnerabilidades sistêmicas. Sua complexidade e opacidade tornam-no um desafio constante para reguladores e formuladores de políticas, que buscam equilibrar a promoção da inovação com a salvaguarda da estabilidade financeira.

A expansão do shadow banking reflete uma evolução natural dos mercados financeiros, impulsionada pela busca por retornos mais elevados, menor custo de capital e a capacidade de contornar regulamentações mais rígidas impostas aos bancos tradicionais. No entanto, essa liberdade operacional vem acompanhada de riscos consideráveis. A interconexão com o sistema bancário regulado, a alavancagem excessiva e a falta de mecanismos de proteção ao investidor são apenas algumas das preocupações que justificam uma análise aprofundada sobre este segmento financeiro. Compreender o shadow banking é, portanto, essencial para qualquer investidor ou analista que deseje navegar com segurança no cenário financeiro contemporâneo.

Compreendendo o shadow banking: definição e escopo

O termo shadow banking refere-se a um sistema de intermediação de crédito que envolve entidades e atividades fora do sistema bancário regulado. Embora não haja uma definição universalmente aceita, o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) o descreve como “intermediação de crédito envolvendo entidades e atividades fora do sistema bancário regular”. Isso inclui uma vasta gama de instituições e produtos, desde fundos de mercado monetário e hedge funds até empresas de financiamento e plataformas de empréstimos online. A essência é que essas operações replicam as funções bancárias, como a transformação de maturidade, a transformação de liquidez e a alavancagem, mas sem a supervisão prudencial e as redes de segurança típicas do setor bancário.

A crescente importância do shadow banking pode ser atribuída a diversos fatores, incluindo a globalização dos mercados financeiros, o avanço tecnológico e a busca por maior eficiência e rentabilidade. Após a crise de 2008, as regulamentações mais rigorosas impostas aos bancos tradicionais, como Basileia III, incentivaram a migração de certas atividades para o setor paralelo, onde os requisitos de capital e liquidez são menos onerosos. Essa migração, embora possa otimizar a alocação de capital e diversificar as fontes de financiamento, também transfere riscos para áreas menos transparentes e mais difíceis de monitorar.

Origens e evolução do conceito

O conceito de shadow banking não é novo, mas sua formalização e reconhecimento como uma categoria distinta de risco sistêmico ganharam força no início do século XXI. As raízes podem ser traçadas até o crescimento dos mercados de capitais e a desintermediação bancária que começou nas últimas décadas do século XX. Instituições como fundos de investimento e empresas de securitização começaram a assumir papéis que antes eram exclusivos dos bancos, como a concessão de crédito e a gestão de ativos.

A crise financeira de 2008 atuou como um catalisador para a compreensão e o estudo aprofundado do shadow banking. Foi nesse período que a interconexão e a vulnerabilidade do sistema paralelo se tornaram dolorosamente evidentes, especialmente através do colapso do mercado de hipotecas subprime e da subsequente crise de liquidez. Desde então, órgãos reguladores internacionais, como o FSB e o Banco de Compensações Internacionais (BIS), têm dedicado esforços significativos para mapear, monitorar e, quando possível, regular as atividades do shadow banking globalmente.

Diferenças cruciais entre shadow banking e banca tradicional

A principal distinção entre o shadow banking e a banca tradicional reside na sua estrutura regulatória e nas garantias oferecidas. Bancos tradicionais são fortemente regulados, sujeitos a requisitos de capital, liquidez e supervisão prudencial rigorosos. Eles também se beneficiam de redes de segurança, como seguro de depósitos e acesso a linhas de liquidez de bancos centrais, o que mitiga o risco de corridas bancárias e falências.

Em contraste, as entidades do shadow banking operam com menor supervisão, muitas vezes sem acesso direto a financiamento de bancos centrais ou seguro de depósitos. Isso lhes permite maior flexibilidade e, potencialmente, maiores retornos, mas também as expõe a riscos de liquidez e solvência mais acentuados. A ausência de uma rede de segurança significa que, em tempos de estresse financeiro, essas entidades podem ser mais suscetíveis a corridas de investidores e podem ter um efeito cascata no sistema financeiro mais amplo, dada sua interconexão com bancos tradicionais.

Principais atores e instrumentos

O ecossistema do shadow banking é vasto e diversificado, englobando uma miríade de atores e instrumentos financeiros. Entre os principais participantes, destacam-se os fundos de mercado monetário (MMFs), que investem em ativos de curto prazo e oferecem aos investidores uma alternativa aos depósitos bancários. Hedge funds e fundos de private equity também desempenham um papel crucial, utilizando estratégias de investimento complexas e alavancagem significativa para gerar retornos.

Além disso, empresas de financiamento, securitizadoras e plataformas de empréstimos peer-to-peer (P2P) são componentes importantes do shadow banking. Os instrumentos incluem acordos de recompra (repos), securitização de ativos (como hipotecas e dívidas de cartão de crédito), derivativos de crédito e outros produtos estruturados. A tabela a seguir ilustra alguns dos principais atores e suas funções no sistema de shadow banking:

Ator do Shadow Banking Função Principal Exemplos de Instrumentos
Fundos de Mercado Monetário Gestão de liquidez de curto prazo Títulos de dívida de curto prazo, commercial papers
Hedge Funds Estratégias de investimento complexas e alavancadas Derivativos, ações, títulos de dívida
Empresas de Financiamento Concessão de crédito a consumidores e empresas Empréstimos pessoais, financiamento de equipamentos
Securitizadoras Empacotamento e venda de ativos em títulos MBS (Mortgage-Backed Securities), ABS (Asset-Backed Securities)
Plataformas P2P Conexão direta entre mutuários e credores Empréstimos pessoais, financiamento empresarial

Esta diversidade de atores e instrumentos sublinha a complexidade do shadow banking e a dificuldade em aplicar uma abordagem regulatória única e abrangente.

Mecanismos e atividades do shadow banking

As atividades do shadow banking são caracterizadas pela sua capacidade de replicar funções bancárias essenciais, mas com estruturas e mecanismos que operam fora do escrutínio regulatório tradicional. A inovação financeira é um motor chave, permitindo que essas entidades desenvolvam produtos e serviços que atendem a demandas específicas do mercado, muitas vezes de forma mais eficiente do que os bancos regulados. No entanto, essa eficiência pode vir acompanhada de riscos sistêmicos, especialmente quando a alavancagem e a interconexão com o sistema bancário tradicional são elevadas.

A engenharia financeira por trás de muitas operações de shadow banking é sofisticada, envolvendo a criação de veículos de propósito especial (SPVs), a utilização de derivativos e a estruturação de transações complexas. Essas técnicas permitem a transformação de ativos ilíquidos em títulos negociáveis, a gestão de riscos de crédito e a otimização de balanços. Contudo, a opacidade inerente a muitas dessas estruturas dificulta a avaliação de riscos por parte de investidores e reguladores, aumentando a probabilidade de surpresas em momentos de estresse financeiro.

Securitização e mercados de recompra (repos)

A securitização é um dos pilares do shadow banking, transformando ativos ilíquidos, como hipotecas ou dívidas de cartão de crédito, em títulos negociáveis. Esses títulos, conhecidos como MBS (Mortgage-Backed Securities) ou ABS (Asset-Backed Securities), são então vendidos a investidores. Esse processo permite que os originadores de crédito removam ativos de seus balanços, liberando capital para novas operações e transferindo o risco de crédito para os investidores.

Os mercados de recompra (repos) são outro componente vital do shadow banking, funcionando como uma forma de financiamento de curto prazo. Em um acordo de repo, uma instituição vende um título a outra com o compromisso de recomprá-lo em uma data futura por um preço ligeiramente superior. Isso é essencialmente um empréstimo garantido por títulos, e as entidades do shadow banking utilizam-no extensivamente para financiar suas operações e gerenciar sua liquidez. A interconexão entre os mercados de repo e o sistema bancário tradicional é profunda, e disrupções nesse mercado podem ter amplas repercussões.

Fundos de mercado monetário e hedge funds

Fundos de mercado monetário (MMFs) são veículos de investimento que oferecem aos investidores uma alternativa aos depósitos bancários, investindo em ativos de curto prazo e alta liquidez, como commercial papers e títulos do tesouro. Embora sejam percebidos como seguros, os MMFs não possuem o seguro de depósitos dos bancos, e sua estrutura pode ser vulnerável a corridas de resgate em momentos de pânico, como evidenciado durante a crise de 2008.

Hedge funds, por sua vez, são fundos de investimento que utilizam uma ampla gama de estratégias para gerar retornos, incluindo alavancagem, vendas a descoberto e investimentos em derivativos complexos. Eles operam com pouca regulamentação em comparação com os bancos e fundos mútuos tradicionais, o que lhes confere grande flexibilidade, mas também os expõe a riscos significativos. A busca por retornos elevados pode levar a tomadas de risco excessivas, com potenciais impactos sistêmicos caso grandes hedge funds enfrentem dificuldades.

Empréstimos peer-to-peer e plataformas de financiamento coletivo

Com o avanço da tecnologia e a digitalização dos serviços financeiros, surgiram novas formas de shadow banking, como os empréstimos peer-to-peer (P2P) e as plataformas de financiamento coletivo (crowdfunding). Essas plataformas conectam diretamente mutuários e credores, contornando a necessidade de intermediários bancários tradicionais. Elas oferecem maior agilidade e, muitas vezes, taxas mais competitivas para os mutuários, além de retornos potencialmente mais altos para os credores.

Embora essas inovações democratizem o acesso ao crédito e ao investimento, elas também introduzem novos desafios regulatórios. A proteção ao investidor, a avaliação de risco de crédito e a prevenção de fraudes são questões críticas que precisam ser abordadas. A rápida expansão dessas plataformas, combinada com a falta de um arcabouço regulatório robusto, pode criar novas fontes de risco no sistema financeiro, especialmente se o volume de transações se tornar sistemicamente relevante.

Riscos inerentes ao shadow banking

Apesar dos benefícios potenciais em termos de eficiência e inovação, o shadow banking apresenta riscos significativos para a estabilidade financeira. A natureza opaca e interconectada de muitas de suas operações torna difícil para os reguladores monitorar e mitigar esses riscos de forma eficaz. A ausência de uma rede de segurança robusta, como a que existe para os bancos tradicionais, amplifica o potencial de contágio e de crises de liquidez.

Os riscos do shadow banking não se limitam apenas às entidades que operam nesse espaço; eles podem se propagar para o sistema bancário tradicional e para a economia real. A interconexão através de financiamento de curto prazo, exposição a ativos securitizados e o uso de derivativos cria canais pelos quais o estresse em uma parte do sistema pode rapidamente se espalhar para outras. Compreender e gerenciar esses riscos é crucial para manter a resiliência do sistema financeiro global.

Risco de liquidez e corrida bancária silenciosa

Um dos riscos mais prementes associados ao shadow banking é o risco de liquidez. Muitas entidades do shadow banking financiam ativos de longo prazo com passivos de curto prazo, criando uma “transformação de maturidade” similar à dos bancos tradicionais, mas sem as mesmas garantias de liquidez. Em momentos de estresse, os investidores podem retirar seus fundos rapidamente, desencadeando uma “corrida bancária silenciosa” ou “corrida por resgates”, onde a entidade não consegue vender seus ativos a tempo ou a preços razoáveis para atender aos pedidos de resgate.

Essa dinâmica foi claramente observada durante a crise de 2008, quando os fundos de mercado monetário sofreram resgates massivos, forçando o governo a intervir para estabilizar o setor. A falta de acesso a uma linha de liquidez de último recurso de um banco central, como os bancos comerciais possuem, torna as entidades do shadow banking particularmente vulneráveis a choques de liquidez, com o potencial de propagar o pânico para outros mercados e instituições.

Risco de crédito e contágio sistêmico

O shadow banking também é uma fonte de risco de crédito, especialmente em cenários de alavancagem excessiva e subavaliação de riscos. Muitas entidades do setor investem em ativos mais arriscados em busca de retornos mais elevados, e a falta de transparência pode ocultar a verdadeira extensão da exposição ao risco de crédito. Quando esses ativos se desvalorizam, as perdas podem ser significativas, levando à insolvência de entidades do shadow banking.

O risco de contágio sistêmico é amplificado pela interconexão entre o shadow banking e o sistema bancário tradicional. Bancos podem ter exposições diretas a entidades do shadow banking através de empréstimos, linhas de crédito ou investimentos em seus produtos. Além disso, a venda de ativos por entidades do shadow banking em momentos de estresse pode deprimir os preços dos ativos, afetando os balanços dos bancos tradicionais e desencadeando um ciclo vicioso de vendas e desvalorização.

Falta de regulação e supervisão

A característica definidora do shadow banking é sua operação fora do escopo regulatório tradicional, o que representa um risco significativo. A ausência de requisitos de capital, liquidez e governança corporativa comparáveis aos dos bancos regulados pode levar a práticas de tomada de risco mais agressivas e a uma acumulação excessiva de alavancagem. Essa lacuna regulatória cria um “arbitragem regulatória”, onde as atividades migram para as áreas de menor supervisão.

A falta de supervisão também dificulta a coleta de dados e a análise de riscos por parte dos reguladores, limitando sua capacidade de identificar e mitigar ameaças sistêmicas antes que elas se materializem. A opacidade em torno das operações do shadow banking é um desafio persistente, exigindo esforços contínuos para melhorar a coleta de informações e a coordenação regulatória em nível global.

Pro-ciclicalidade e amplificação de choques

O shadow banking pode exacerbar a pro-ciclicalidade do sistema financeiro, amplificando os ciclos de boom e bust. Durante períodos de expansão econômica e otimismo, as entidades do shadow banking tendem a expandir o crédito e a tomar mais riscos, contribuindo para a formação de bolhas de ativos. A alavancagem excessiva e a dependência de financiamento de curto prazo tornam essas entidades particularmente vulneráveis a reversões de mercado.

Quando ocorre um choque, as entidades do shadow banking podem ser forçadas a vender ativos rapidamente para atender a chamadas de margem ou resgates, o que deprime ainda mais os preços dos ativos e agrava a crise. Esse comportamento pro-cíclico cria um feedback loop negativo, onde a contração do crédito e a queda dos preços dos ativos se reforçam mutuamente, aprofundando recessões e dificultando a recuperação econômica.

Impacto na estabilidade financeira global

O shadow banking não é um fenômeno isolado; suas ramificações se estendem por todo o sistema financeiro global, com o potencial de desestabilizar economias e mercados. A interconexão global dos mercados financeiros significa que um choque originado no shadow banking de uma região pode rapidamente se propagar para outras, criando uma crise de proporções internacionais. A complexidade e a natureza transfronteiriça de muitas operações do shadow banking tornam a coordenação regulatória um desafio monumental.

A experiência da crise financeira de 2008 serviu como um alerta claro sobre o poder destrutivo do shadow banking não regulado. Desde então, houve um esforço concertado por parte de órgãos internacionais para entender e mitigar esses riscos, mas a natureza em constante evolução do setor significa que novos desafios surgem continuamente. A capacidade de prever e responder a essas ameaças é crucial para a manutenção da estabilidade financeira global.

Crise financeira de 2008: o papel do shadow banking

A crise financeira de 2008 é frequentemente citada como o exemplo mais dramático do impacto do shadow banking na estabilidade global. O colapso do mercado de hipotecas subprime nos Estados Unidos revelou a fragilidade de um sistema onde empréstimos de alto risco eram securitizados em complexos produtos financeiros e distribuídos globalmente. Entidades do shadow banking, como os veículos de investimento estruturados (SIVs), desempenharam um papel central nesse processo, financiando ativos de longo prazo com dívida de curto prazo.

Quando o mercado imobiliário entrou em colapso e os mutuários começaram a inadimplir, o valor dos títulos lastreados em hipotecas (MBS) despencou. Isso levou a perdas maciças para as entidades do shadow banking que detinham esses ativos, desencadeando uma crise de confiança e uma corrida por resgates. A interconexão com bancos tradicionais, que tinham investido nesses produtos ou fornecido financiamento a entidades do shadow banking, garantiu que a crise se espalhasse rapidamente, resultando em resgates governamentais e uma recessão global.

Desafios regulatórios e a busca por um equilíbrio

Os desafios regulatórios impostos pelo shadow banking são multifacetados. A dificuldade em definir e mapear o setor, a natureza transfronteiriça de suas operações e a rápida inovação financeira tornam a tarefa de regulamentação extremamente complexa. Os reguladores buscam um equilíbrio delicado entre conter os riscos sistêmicos e evitar sufocar a inovação e a eficiência que o shadow banking pode oferecer.

Uma abordagem excessivamente restritiva pode levar à migração de atividades para jurisdições ainda menos reguladas ou à criação de novas formas de intermediação de crédito que escapam à supervisão. Por outro lado, uma abordagem leniente pode permitir a acumulação de riscos que podem desestabilizar o sistema financeiro. A coordenação internacional é essencial, pois a regulamentação em um país pode simplesmente deslocar o risco para outro, criando um “arbitragem regulatória” global.

Implicações para economias emergentes

As economias emergentes são particularmente vulneráveis aos riscos do shadow banking. A menor profundidade de seus mercados financeiros, a menor capacidade regulatória e a maior dependência de fluxos de capital externos podem amplificar os impactos negativos de choques originados no shadow banking. A entrada e saída volátil de capital, muitas vezes intermediada por entidades do shadow banking, pode causar instabilidade cambial e crises financeiras.

Além disso, o crescimento do shadow banking doméstico em economias emergentes, muitas vezes impulsionado pela busca por crédito mais acessível e menos regulado, pode criar novas fontes de risco sistêmico. A falta de dados e a dificuldade em monitorar essas atividades representam um desafio significativo para os reguladores locais, que precisam desenvolver arcabouços regulatórios robustos e coordenar-se com seus pares internacionais para gerenciar esses riscos de forma eficaz.

Perspectivas futuras e o caminho à frente

O futuro do shadow banking será moldado por uma interação complexa entre inovação financeira, evolução regulatória e as dinâmicas dos mercados globais. É improvável que o shadow banking desapareça; em vez disso, ele continuará a evoluir e se adaptar, exigindo uma vigilância constante e uma abordagem flexível por parte dos reguladores. A meta não é erradicar o shadow banking, mas sim gerenciá-lo de forma a mitigar seus riscos sistêmicos, ao mesmo tempo em que se permite que os benefícios da inovação financeira floresçam.

A colaboração internacional será cada vez mais crucial, dado o caráter transfronteiriço das operações do shadow banking. A troca de informações, a harmonização de padrões regulatórios e a coordenação de políticas são essenciais para construir um sistema financeiro global mais resiliente. O caminho à frente envolve um compromisso contínuo com a transparência, o monitoramento e a adaptação regulatória para enfrentar os desafios emergentes.

Iniciativas regulatórias globais e regionais

Desde a crise de 2008, houve um esforço significativo por parte de órgãos reguladores globais e regionais para abordar os riscos do shadow banking. O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) tem liderado a agenda internacional, desenvolvendo um arcabouço para o monitoramento e a regulamentação do setor. Isso inclui a identificação de entidades sistemicamente importantes, a melhoria da coleta de dados e a implementação de políticas para mitigar riscos de liquidez e alavancagem.

Em nível regional, as autoridades reguladoras também têm implementado medidas para fortalecer a supervisão do shadow banking. Isso envolve a extensão de requisitos regulatórios para certas entidades e atividades que antes operavam fora do escopo, bem como a melhoria da coordenação entre diferentes agências reguladoras. A tabela a seguir resume algumas das principais iniciativas e seus objetivos:

Iniciativa Regulatória Órgão Responsável Objetivo Principal
Monitoramento Global do Shadow Banking FSB Identificar e avaliar riscos sistêmicos
Regulamentação de MMFs IOSCO, reguladores nacionais Reduzir vulnerabilidades de liquidez
Supervisão de Infraestruturas de Mercado CPSS-IOSCO Fortalecer a resiliência de CCPs e sistemas de pagamento
Regulação de Hedge Funds Reguladores nacionais (ex: SEC, FCA) Aumentar a transparência e limitar a alavancagem

Essas iniciativas representam um passo importante na construção de um sistema financeiro mais seguro, mas a natureza dinâmica do shadow banking exige uma adaptação contínua.

Inovação financeira vs. estabilidade

A tensão entre inovação financeira e estabilidade é uma característica central do debate sobre o shadow banking. A inovação pode trazer benefícios substanciais, como maior eficiência, menor custo de capital e maior acesso a financiamento para empresas e consumidores. No entanto, ela também pode criar novas formas de risco e desafiar os arcabouços regulatórios existentes.

Os reguladores enfrentam o desafio de permitir que a inovação prospere, ao mesmo tempo em que garantem que os riscos associados sejam adequadamente gerenciados. Isso requer uma compreensão profunda das novas tecnologias e modelos de negócios, bem como a capacidade de desenvolver regulamentações que sejam flexíveis o suficiente para se adaptar a um ambiente em constante mudança. A colaboração com o setor privado e a academia é essencial para antecipar e responder aos desafios emergentes.

A importância da transparência e monitoramento

A transparência e o monitoramento são ferramentas cruciais na gestão dos riscos do shadow banking. Melhorar a coleta de dados sobre as atividades, exposições e interconexões das entidades do shadow banking é fundamental para permitir que os reguladores avaliem os riscos sistêmicos de forma mais eficaz. Isso inclui a padronização de relatórios, a criação de repositórios de dados e o uso de tecnologias avançadas para análise de informações.

Além disso, o monitoramento contínuo das tendências e desenvolvimentos no shadow banking é essencial para identificar novas fontes de risco e adaptar as políticas regulatórias conforme necessário. A capacidade de agir proativamente, em vez de reativamente, é fundamental para prevenir futuras crises financeiras. Um sistema financeiro mais transparente e bem monitorado é um sistema mais resiliente.

O shadow banking é uma força poderosa e em constante evolução no cenário financeiro global. Embora ofereça benefícios em termos de eficiência e inovação, seus riscos inerentes à estabilidade financeira exigem uma atenção contínua e uma abordagem regulatória sofisticada. A compreensão aprofundada de seus mecanismos, atores e vulnerabilidades é indispensável para investidores, formuladores de políticas e qualquer um que deseje navegar com sucesso no complexo mundo das finanças modernas. A busca por um equilíbrio entre a promoção da inovação e a salvaguarda da estabilidade continuará a ser um desafio central nos próximos anos.

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FAQ

Como o Financial Stability Board (FSB) define “shadow banking” e quais são suas funções essenciais?

O FSB define “shadow banking” como a intermediação de crédito envolvendo entidades e atividades fora do sistema bancário regulado. Suas funções essenciais incluem intermediação de crédito, transformação de prazos e liquidez, e criação de alavancagem, muitas vezes replicando atividades bancárias tradicionais com menor supervisão.

Quais são os principais mecanismos pelos quais o shadow banking pode gerar risco sistêmico?

O shadow banking gera risco sistêmico através de alavancagem excessiva, descasamento de prazos e liquidez (maturity and liquidity mismatch), e interconexões complexas com o sistema bancário tradicional. Isso pode levar a corridas em fundos, vendas forçadas de ativos e contágio financeiro em momentos de estresse.

De que forma o shadow banking explora a “arbitragem regulatória”?

A arbitragem regulatória ocorre quando entidades do shadow banking realizam atividades financeiras semelhantes às dos bancos tradicionais, mas sob um regime regulatório menos rigoroso ou inexistente. Isso permite evitar requisitos de capital, liquidez e outras normas, buscando maior rentabilidade, mas aumentando os riscos não supervisionados.

Como a interconexão entre o sistema bancário tradicional e o shadow banking amplifica os riscos de contágio?

A interconexão se dá por meio de financiamento interbancário, operações de recompra (repos), empréstimos de títulos e derivativos. Uma crise no shadow banking pode forçar bancos a resgatar linhas de crédito ou vender ativos, propagando o estresse para o sistema bancário tradicional e vice-versa, criando um ciclo vicioso de desvalorização e falta de liquidez.

Qual o papel do “mismatch de liquidez” nas operações de shadow banking e como ele contribui para a fragilidade financeira?

O mismatch de liquidez ocorre quando entidades do shadow banking financiam ativos de longo prazo e ilíquidos com passivos de curto prazo e líquidos (ex: fundos de mercado monetário). Em pânico, investidores podem resgatar esses passivos rapidamente, forçando vendas de ativos a preços baixos e exacerbando a iliquidez e a instabilidade do sistema.

Que tipos de medidas regulatórias e de supervisão têm sido propostas ou implementadas para mitigar os riscos do shadow banking?

Medidas incluem aprimoramento da coleta de dados e monitoramento, regulamentação de Money Market Funds (MMFs), aumento da transparência em mercados de securitização e repos, e extensão de requisitos prudenciais para atividades “bancárias” realizadas fora dos bancos tradicionais, focando na atividade e não apenas na entidade.