Teoria Monetária Moderna (MMT): Fundamentos, Implicações e o Debate Crítico

A Teoria Monetária Moderna (MMT) emergiu nas últimas décadas como uma das abordagens mais instigantes e controversas no campo da macroeconomia, desafiando premissas arraigadas sobre finanças públicas, dívida governamental e o papel da moeda. Em sua essência, a MMT propõe uma reinterpretação radical de como os governos que emitem sua própria moeda soberana operam, argumentando que as restrições financeiras impostas a esses governos são fundamentalmente diferentes daquelas enfrentadas por famílias ou empresas. Esta perspectiva heterodoxa tem gerado um intenso debate entre economistas, formuladores de políticas e o público em geral, com defensores apontando para o potencial de políticas mais ambiciosas para alcançar o pleno emprego e o bem-estar social, enquanto críticos alertam para os riscos de inflação descontrolada e instabilidade econômica.

Este artigo aprofundará nos fundamentos da Teoria Monetária Moderna, explorando seus pilares conceituais, as implicações para a política econômica e as principais críticas que moldam o debate atual. Ao desmistificar a natureza da moeda fiduciária e o poder do Estado, a MMT oferece uma lente alternativa para analisar as capacidades e limites da política fiscal e monetária, provocando uma reflexão crucial sobre a forma como concebemos e gerenciamos nossas economias. Compreender a MMT não é apenas uma questão de acompanhar uma corrente de pensamento econômico; é mergulhar em um diálogo fundamental sobre o futuro das políticas públicas e a busca por uma prosperidade mais equitativa e sustentável.

Compreendendo a Teoria Monetária Moderna (MMT)

A Teoria Monetária Moderna (MMT) é uma escola de pensamento econômico que se concentra na operação de economias com moeda fiduciária soberana, ou seja, moedas que não são lastreadas em commodities como ouro e que são emitidas por um governo que tem o monopólio da emissão. Ao contrário das visões econômicas tradicionais que frequentemente comparam o orçamento governamental ao de uma família, a MMT argumenta que um governo soberano, que pode emitir sua própria moeda, não enfrenta as mesmas restrições financeiras. Ele não pode “ficar sem dinheiro” no sentido literal, nem pode ser forçado à falência em sua própria moeda.

Esta perspectiva tem profundas implicações para a forma como pensamos sobre déficits orçamentários, dívida pública e o financiamento de programas sociais. A MMT sugere que a capacidade de um governo de gastar é limitada não pela sua capacidade de arrecadar impostos ou de emprestar, mas sim pela disponibilidade de recursos reais na economia, como mão de obra, matérias-primas e capacidade produtiva. Se houver recursos ociosos, o governo pode gastar para ativá-los sem causar inflação.

Origens e evolução da MMT

As raízes da Teoria Monetária Moderna podem ser rastreadas até as ideias de economistas como Georg Friedrich Knapp, que no início do século XX desenvolveu a teoria estatal da moeda, e Alfred Mitchell-Innes, que enfatizou o papel da moeda como um crédito ou débito. Mais recentemente, a MMT foi desenvolvida e popularizada por economistas como Warren Mosler, L. Randall Wray, Stephanie Kelton e Bill Mitchell. Eles basearam suas análises em uma combinação de abordagens pós-keynesianas, chartalistas e institucionalistas, focando na natureza endógena da moeda e no papel central do Estado na sua criação e gestão.

A MMT ganhou maior proeminência após a crise financeira global de 2008, quando os governos implementaram grandes pacotes de estímulo e os bancos centrais adotaram políticas monetárias não convencionais, como o quantitative easing. Essas ações, que muitos economistas mainstream previram que levariam a uma inflação galopante (o que não ocorreu na escala esperada), validaram, para os defensores da MMT, a ideia de que os governos têm muito mais espaço fiscal do que se acreditava. O debate sobre a MMT intensificou-se ainda mais com propostas como o Green New Deal e a garantia de empregos, que exigem investimentos públicos substanciais.

O papel da moeda e a soberania monetária

No cerne da MMT está uma compreensão específica da moeda. Para a MMT, a moeda é fundamentalmente uma criatura do Estado, uma unidade de conta que o governo usa para denominar impostos e outras obrigações. O governo, ao exigir que os impostos sejam pagos em sua própria moeda, cria demanda por essa moeda. As pessoas precisam da moeda do governo para pagar seus impostos, o que lhes dá um incentivo para trabalhar e vender bens e serviços em troca dessa moeda.

A soberania monetária é um conceito chave aqui. Um país possui soberania monetária se: 1) emite sua própria moeda fiduciária, 2) não fixa sua moeda a outra moeda ou commodity, e 3) não possui dívidas significativas denominadas em moeda estrangeira. Países que atendem a esses critérios, como Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Canadá, têm uma capacidade fiscal muito maior do que países que não os atendem (como os membros da zona do euro ou países em desenvolvimento com dívidas em dólar). Para a MMT, a capacidade de um governo de emitir moeda é um poder fundamental que deve ser compreendido e utilizado para o bem público.

O governo como emissor de moeda

A MMT argumenta que o governo, como emissor monopolista de sua própria moeda, não precisa “financiar” seus gastos da mesma forma que um indivíduo ou empresa. Quando o governo gasta, ele cria dinheiro digitalmente nas contas dos bancos comerciais, que por sua vez creditam as contas dos recebedores. Os impostos, por sua vez, não servem para “financiar” os gastos, mas sim para criar demanda pela moeda, gerenciar a demanda agregada (combatendo a inflação) e redistribuir renda.

Essa visão inverte a lógica tradicional: o governo gasta primeiro e depois os impostos removem moeda da circulação. O déficit orçamentário do governo, sob essa ótica, é o superávit do setor privado. Se o governo gasta mais do que arrecada em impostos, ele está injetando moeda líquida na economia, o que, para a MMT, é essencial para permitir que o setor privado poupe e acumule riqueza. A dívida pública, nesse contexto, é simplesmente o registro da moeda que o governo injetou na economia e que ainda não foi retirada por impostos ou outras operações.

Pilares Fundamentais da MMT

A Teoria Monetária Moderna se apoia em alguns pilares conceituais que, quando compreendidos em conjunto, oferecem uma visão coesa e desafiadora da macroeconomia. Estes pilares são cruciais para entender as implicações políticas da MMT e as críticas que ela enfrenta. Eles redefinem a relação entre governo, moeda, dívida e os objetivos de pleno emprego e estabilidade de preços.

Financiamento de déficits e dívida pública

Um dos aspectos mais marcantes da MMT é sua abordagem aos déficits e à dívida pública. Para um governo com soberania monetária, a MMT afirma que o financiamento de déficits não é uma questão de “encontrar dinheiro”, mas sim de alocar recursos. O governo não precisa “pedir emprestado” aos mercados financeiros para gastar; ele simplesmente cria a moeda necessária. A emissão de títulos da dívida pública, nesse contexto, não é para financiar gastos, mas sim para gerenciar as taxas de juros e drenar o excesso de reservas do sistema bancário, evitando que as taxas de juros caiam para zero (se o Banco Central não tiver uma meta de juros zero).

A dívida pública, portanto, não é vista como um fardo para as futuras gerações no sentido tradicional. Ela representa os ativos financeiros do setor privado (títulos do governo) e a moeda que o governo injetou na economia. A preocupação com a “sustentabilidade” da dívida é, para a MMT, um equívoco quando se trata de dívida denominada na própria moeda do país. O verdadeiro limite para o gasto governamental não é a dívida, mas a capacidade produtiva da economia e o risco de inflação.

Inflação e pleno emprego: o limite real

A MMT não ignora a inflação; pelo contrário, a considera o principal limite real para o gasto governamental. Se o governo gastar excessivamente quando a economia já está operando em sua plena capacidade (ou seja, todos os recursos disponíveis – trabalho, capital, matérias-primas – estão sendo utilizados), isso pode levar a um aumento generalizado de preços, pois há mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens e serviços. No entanto, se houver recursos ociosos, o gasto governamental pode ser usado para ativá-los e aumentar a produção sem necessariamente gerar inflação.

O pleno emprego é um objetivo central da MMT. Em vez de aceitar uma taxa natural de desemprego (NAIRU), a MMT propõe que o governo tem a capacidade e a responsabilidade de garantir emprego para todos que desejam trabalhar. A inflação, nesse modelo, é controlada principalmente através da política fiscal (aumentando impostos ou cortando gastos para reduzir a demanda agregada) e não pela política monetária de elevação de juros, que a MMT vê como uma ferramenta ineficaz e prejudicial para o emprego.

O programa de garantia de empregos (Job Guarantee)

Uma das propostas políticas mais distintivas da MMT é o Programa de Garantia de Empregos (PGE), também conhecido como Job Guarantee. Este programa visa eliminar o desemprego involuntário, oferecendo um emprego público a qualquer pessoa que esteja disposta e apta a trabalhar, a um salário mínimo digno com benefícios. O PGE atua como um “estabilizador automático” da economia: em períodos de recessão, quando o setor privado demite, o programa absorve os trabalhadores, mantendo a renda e a demanda. Em períodos de expansão, os trabalhadores podem transitar para o setor privado.

Além de garantir o pleno emprego, o PGE serve como um mecanismo de estabilização de preços. Ao oferecer um salário fixo, ele estabelece um “piso salarial” que ajuda a ancorar os preços e a evitar pressões inflacionárias excessivas. Os defensores da MMT veem o PGE como uma alternativa superior à política monetária de elevação de juros para combater a inflação, pois ele não sacrifica o emprego em nome da estabilidade de preços. É uma forma de gerenciar o limite real de recursos, garantindo que a força de trabalho esteja sempre plenamente utilizada.

Implicações de Política Econômica da MMT

As ideias da Teoria Monetária Moderna, se adotadas, implicam uma reformulação significativa das prioridades e ferramentas da política econômica. Elas desafiam a ortodoxia econômica que dominou por décadas, propondo um novo paradigma para a gestão macroeconômica. As implicações se estendem desde o papel das políticas fiscal e monetária até a forma como os países em desenvolvimento podem abordar seus desafios econômicos.

Política fiscal como ferramenta primária

Para a MMT, a política fiscal – os gastos e a tributação do governo – é a ferramenta mais poderosa e direta para alcançar os objetivos macroeconômicos de pleno emprego e estabilidade de preços. Em vez de ver o orçamento como uma restrição, a MMT o vê como um instrumento para moldar a economia. Se há desemprego, o governo deve gastar mais para criar empregos e estimular a demanda. Se há inflação, o governo deve reduzir gastos ou aumentar impostos para diminuir a demanda agregada.

Esta abordagem contrasta fortemente com a visão mainstream, que muitas vezes prioriza a política monetária (controle de taxas de juros pelo banco central) como a principal ferramenta de estabilização, e vê a política fiscal com ceticismo devido a preocupações com déficits e dívida. A MMT argumenta que a política fiscal tem um impacto mais direto e eficaz na economia real, especialmente na criação de empregos e na alocação de recursos, enquanto a política monetária tem limites e efeitos indiretos.

O papel do banco central e a taxa de juros

Na MMT, o papel do banco central é redefinido. Em vez de ser o principal guardião da estabilidade de preços através do controle das taxas de juros, o banco central é visto como um facilitador da política fiscal do governo. Sua principal função é garantir que o sistema de pagamentos funcione sem problemas e que o governo possa gastar conforme necessário, mantendo as taxas de juros em um nível desejado. O banco central, por exemplo, pode comprar títulos do governo para garantir que haja liquidez suficiente no sistema bancário e que as taxas de juros de curto prazo permaneçam baixas.

A MMT argumenta que a política de elevação de juros para combater a inflação é frequentemente contraproducente. Juros mais altos aumentam a renda dos detentores de títulos (muitas vezes os mais ricos), aumentam o custo da dívida pública e podem sufocar o investimento produtivo. Em vez disso, a MMT propõe que a inflação seja combatida através da política fiscal, ajustando os gastos e impostos para gerenciar a demanda agregada e os recursos reais.

Desafios e oportunidades para países em desenvolvimento

A aplicação da MMT em países em desenvolvimento apresenta tanto oportunidades quanto desafios únicos. Para países com soberania monetária e pouca dívida externa, a MMT sugere que eles têm mais espaço fiscal para investir em infraestrutura, educação e saúde do que se pensa. Isso poderia acelerar o desenvolvimento e reduzir a pobreza. No entanto, muitos países em desenvolvimento não possuem plena soberania monetária; eles podem ter dívidas significativas denominadas em moeda estrangeira, depender de importações essenciais e ter mercados financeiros subdesenvolvidos.

Para esses países, a MMT reconhece que as restrições são mais severas. A capacidade de emitir moeda não os protege de crises cambiais se dependerem de importações e não puderem pagar em moeda estrangeira. A inflação importada e a fuga de capitais são riscos maiores. Assim, enquanto a MMT oferece uma nova perspectiva, ela também exige uma análise cuidadosa das condições específicas de cada economia, especialmente no que diz respeito à sua integração na economia global e à sua capacidade de produzir bens e serviços internamente.

As Principais Críticas à MMT

A Teoria Monetária Moderna, apesar de sua crescente popularidade, é alvo de críticas substanciais de economistas de diversas escolas de pensamento, incluindo a mainstream e até mesmo alguns heterodoxos. As preocupações giram em torno de riscos inflacionários, sustentabilidade da dívida e a aplicabilidade de seus princípios em diferentes contextos econômicos.

Risco inflacionário e controle de preços

A crítica mais comum e veemente à MMT é que suas propostas de gastos governamentais irrestritos levariam inevitavelmente a uma inflação descontrolada. Críticos argumentam que, embora um governo soberano possa criar moeda à vontade, a capacidade produtiva da economia não é ilimitada. Se o governo injetar uma grande quantidade de dinheiro na economia sem um aumento correspondente na produção de bens e serviços, o resultado será “muito dinheiro perseguindo poucos bens”, elevando os preços.

A MMT responde que o limite real é a inflação, e que o governo deve parar de gastar ou aumentar impostos quando a inflação se tornar um problema. No entanto, os críticos questionam a praticidade e a eficácia de usar a política fiscal para combater a inflação. Eles argumentam que a política fiscal é lenta e politicamente difícil de ajustar rapidamente (por exemplo, aumentar impostos em uma economia aquecida). Além disso, a MMT não oferece um mecanismo claro para determinar o ponto exato em que a economia atinge sua plena capacidade, tornando difícil prever quando os gastos se tornarão inflacionários.

Sustentabilidade da dívida e confiança do mercado

Embora a MMT afirme que a dívida pública em moeda própria não é um problema de solvência, os críticos alertam para outros riscos associados a grandes volumes de dívida. Eles argumentam que uma dívida pública crescente, mesmo em moeda própria, pode levar a uma perda de confiança dos investidores e do público. Isso poderia resultar em uma desvalorização da moeda, fuga de capitais e, em casos extremos, uma crise de confiança que dificultaria até mesmo para um governo soberano financiar seus gastos ou manter a estabilidade econômica.

Além disso, os críticos apontam que juros sobre a dívida, mesmo que pagos em moeda própria, representam uma transferência de renda dos contribuintes para os detentores de títulos, o que pode exacerbar a desigualdade. Embora a MMT veja os títulos como uma forma de gerenciar as taxas de juros, os críticos veem o acúmulo de dívida como um passivo real que pode ter consequências negativas a longo prazo, incluindo o risco de “crowding out” (deslocamento) do investimento privado se os juros subirem muito.

Limitações em economias não soberanas

A MMT é explicitamente aplicável a países com plena soberania monetária. No entanto, muitos países não se encaixam perfeitamente nesta definição. Países que usam uma moeda estrangeira (como o dólar americano), que têm sua moeda atrelada a outra moeda, ou que possuem dívidas significativas denominadas em moeda estrangeira, enfrentam restrições financeiras muito mais rígidas. Para esses países, a capacidade de “imprimir dinheiro” não é uma opção viável para financiar gastos, pois isso levaria rapidamente a uma crise cambial e inflação importada.

Os críticos argumentam que a MMT, ao focar excessivamente nos países com soberania monetária, oferece pouca orientação prática para a maioria das economias do mundo, especialmente as em desenvolvimento, que são mais vulneráveis a choques externos e têm menor controle sobre sua política monetária. Mesmo países com soberania monetária podem enfrentar restrições externas se dependerem muito de importações ou se seus mercados financeiros não forem profundos o suficiente para absorver grandes emissões de dívida.

O debate com a economia mainstream

A MMT desafia fundamentalmente muitos dos pressupostos da economia mainstream, o que gera um debate acalorado. A economia mainstream geralmente vê os déficits fiscais como um problema que precisa ser financiado por impostos ou empréstimos, e que pode levar a um aumento da dívida e pressões inflacionárias. A MMT inverte essa lógica, argumentando que os déficits são uma característica natural de uma economia em crescimento e que o governo tem o poder de criar moeda.

Conceito Visão Mainstream Visão MMT
Déficit Governamental Necessita ser financiado por impostos ou empréstimos; pode levar à dívida insustentável. É um superávit do setor privado; o governo cria moeda ao gastar, não precisa “financiar”.
Dívida Pública Um passivo que precisa ser pago; pode sobrecarregar futuras gerações e elevar juros. Ativo financeiro para o setor privado; não é um problema de solvência para emissores de moeda soberana.
Inflação Principalmente controlada pela política monetária (juros); gastos excessivos causam inflação. Controlada pela política fiscal (impostos/gastos); limite real para gastos é a capacidade produtiva.
Papel do Banco Central Independente, foca na estabilidade de preços via taxas de juros. Facilitador da política fiscal, mantém taxas de juros baixas para apoiar gastos governamentais.
Pleno Emprego Atingido com políticas que reduzem a taxa natural de desemprego (NAIRU). Alcançável via garantia de empregos (Job Guarantee) do governo.

Tabela 1: Comparativo de Conceitos Chave entre MMT e Economia Mainstream

A MMT também critica a visão de que a política monetária é a ferramenta mais eficaz para estabilizar a economia, argumentando que as taxas de juros afetam a demanda de forma desigual e podem ser ineficazes em uma “armadilha de liquidez”. A MMT, portanto, propõe uma mudança de paradigma onde a política fiscal assume a liderança, e o banco central atua em apoio. Este contraste fundamental continua a alimentar o debate e a pesquisa em macroeconomia.

MMT no Cenário Global: Casos e Debates Atuais

A Teoria Monetária Moderna, embora não seja uma política oficialmente adotada por nenhum governo em sua totalidade, tem influenciado discussões e propostas políticas em diversas partes do mundo. A crise financeira de 2008 e a pandemia de COVID-19, com suas respostas fiscais e monetárias massivas, forneceram um terreno fértil para a reavaliação das capacidades governamentais e para o debate sobre as ideias da MMT.

Aplicações potenciais e exemplos históricos

Embora a MMT seja uma teoria relativamente nova, seus defensores apontam para exemplos históricos e contemporâneos que, segundo eles, demonstram a validade de seus princípios. O Japão, por exemplo, tem uma dívida pública que supera 250% do PIB, mas tem mantido taxas de juros baixas e inflação contida por décadas. Para a MMT, isso é um indicativo de que a dívida em moeda própria não é um problema de solvência. No entanto, críticos apontam para o crescimento econômico anêmico do Japão como um contraponto.

Outros exemplos citados incluem os esforços de guerra, onde os governos gastam massivamente sem se preocupar em “financiar” esses gastos de antemão, mobilizando recursos reais da economia. A MMT argumenta que o mesmo princípio pode ser aplicado para financiar programas sociais, infraestrutura e transições energéticas. Propostas como o Green New Deal nos Estados Unidos, que exigem investimentos públicos massivos para combater as mudanças climáticas, frequentemente encontram apoio em argumentos alinhados à MMT, que sugerem que a restrição não é monetária, mas sim de recursos reais e vontade política.

O futuro da MMT no discurso econômico

A MMT tem forçado a economia mainstream a reavaliar algumas de suas premissas, especialmente em um ambiente de taxas de juros baixas e inflação moderada, mesmo com déficits crescentes. O debate sobre a MMT tem levado a uma maior discussão sobre o papel da política fiscal, a natureza da dívida pública e os limites da política monetária. Mesmo que a MMT não seja totalmente adotada, ela já contribuiu para uma maior aceitação de que os governos têm mais espaço fiscal do que se pensava, especialmente em momentos de crise ou quando há recursos ociosos.

O futuro da MMT dependerá de sua capacidade de refinar suas propostas, abordar as críticas de forma mais robusta e demonstrar sua aplicabilidade prática em diferentes contextos econômicos. À medida que os países enfrentam desafios como as mudanças climáticas, a desigualdade e a necessidade de investimentos em infraestrutura, as ideias da MMT continuarão a ser uma voz importante no debate sobre como financiar um futuro mais próspero e equitativo.

Perspectivas Finais sobre a MMT e seu Impacto

A Teoria Monetária Moderna (MMT) representa um desafio significativo à ortodoxia econômica, oferecendo uma lente alternativa para compreender a operação das economias com moeda fiduciária soberana. Seus fundamentos, que redefinem o papel da moeda, do governo e da dívida, abrem caminho para uma visão mais ambiciosa da política fiscal como principal ferramenta para alcançar o pleno emprego e o bem-estar social. A MMT nos convida a questionar a ideia de que os governos são financeiramente restritos da mesma forma que as famílias ou empresas, e a considerar a inflação, e não a escassez de dinheiro, como o verdadeiro limite para o gasto público.

No entanto, as críticas à MMT são igualmente robustas e merecem atenção. Preocupações com o risco inflacionário, a sustentabilidade da dívida e a aplicabilidade em economias com diferentes graus de soberania monetária são pontos válidos que continuam a alimentar um debate essencial. O confronto entre a MMT e a economia mainstream tem o mérito de forçar uma reavaliação de conceitos fundamentais e de estimular a busca por soluções inovadoras para os desafios econômicos contemporâneos.

Em última análise, a MMT não é apenas uma teoria econômica; é um convite à reflexão sobre o que é possível quando se compreende a verdadeira natureza do poder monetário do Estado. Independentemente de sua aceitação total, a MMT já deixou uma marca indelével no discurso econômico, expandindo os horizontes do que se considera fiscalmente viável e reorientando o foco para a mobilização de recursos reais em prol de objetivos sociais. Para formuladores de políticas, acadêmicos e cidadãos interessados, a MMT oferece uma perspectiva valiosa para repensar as restrições e as oportunidades na gestão de nossas economias.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as implicações práticas da MMT e como ela pode moldar futuras políticas econômicas, explore nossos outros artigos e análises sobre macroeconomia e finanças públicas.

FAQ

Qual é o princípio fundamental da Teoria Monetária Moderna (MMT) em relação aos governos emissores de moeda?

A MMT postula que um governo soberano que emite sua própria moeda fiduciária não enfrenta restrições financeiras orçamentárias. Ele pode criar a moeda necessária para qualquer gasto, não estando limitado por sua capacidade de tributar ou emitir dívida, ao contrário de um lar ou empresa.

Como a MMT redefine o papel dos impostos na economia?

Para a MMT, impostos não servem para financiar gastos governamentais. Em vez disso, eles são ferramentas para criar demanda pela moeda nacional, controlar a inflação (removendo poder de compra da economia) e redistribuir renda e riqueza.

Qual é a principal restrição aos gastos governamentais segundo a MMT?

A principal restrição aos gastos não é financeira, mas sim a disponibilidade de recursos reais (mão de obra, matérias-primas, capacidade produtiva). Gastos excessivos que excedam a capacidade produtiva da economia podem gerar inflação, pois há mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens e serviços.

Como a MMT aborda a questão da dívida pública?

A MMT considera a dívida pública de um emissor de moeda soberano como meramente um registro contábil de moeda emitida e não resgatada via impostos. Ela não representa um fardo financeiro para futuras gerações, mas sim uma forma de poupança para o setor privado, na forma de títulos do governo.

Quais são as principais críticas à MMT em relação à inflação?

Críticos argumentam que a MMT subestima o risco inflacionário de gastos governamentais expansivos, mesmo com a capacidade de tributar para controlar a demanda. Há preocupações de que a resposta política à inflação (aumento de impostos ou cortes de gastos) seja politicamente difícil e demorada de implementar, levando a períodos de alta inflação.

De que forma a MMT difere da visão econômica mainstream sobre o financiamento governamental?

A MMT inverte a lógica mainstream: o governo gasta primeiro, criando dinheiro, e só então os impostos são pagos. A visão econômica mainstream geralmente assume que o governo precisa arrecadar impostos ou emitir dívida para financiar seus gastos, tratando o orçamento governamental de forma análoga ao de uma família ou empresa.

A MMT propõe alguma política específica para alcançar o pleno emprego?

Sim, a MMT frequentemente defende um Programa de Garantia de Emprego (Job Guarantee) como um estabilizador automático. Nele, o governo atua como empregador de última instância, oferecendo trabalho a todos que desejam e podem trabalhar, com um salário mínimo digno e benefícios, visando eliminar o desemprego involuntário.